segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Chapter 3: a sombra de Alice

Os melhores contos começam na mesa de bar...

É hora de trazer a luz o ego mais sombrio, a parte animalesca da personalidade humana, o arquétipo herdado das formas inferiores de vida através da longa evolução que levou ao ser humano. Revelar todas aquelas atividades e desejos que podem ser considerados imorais e violentos, aqueles que a sociedade, e até nós mesmos, não podemos aceitar. Considerar que posso me comportar de uma forma que normalmente não me permitiria sem insistir que fui acometida por algo que estava além de meu controle. Precisamos, na hora certa, nos levar pelo aspecto positivo de nossa sombra; a espontaneidade, a criatividade, os insights e a emoção profunda, características necessárias para o desenvolvimento humano pleno.

Hoje irei clarear sobre a minha timidez. A palavra timidez é definida pelo santo Google (e por alguns amigos meus) como um padrão de comportamento em que a pessoa não exprime, ou exprime pouco, seus pensamentos e sentimentos e não interage ativamente. Aliás, quando em grau moderado, todos os seres humanos são, em algum momento de suas vidas, afetados pela timidez, que funciona como uma espécie de regulador social, inibidor dos excessos condenados pela sociedade como um todo. A timidez funciona ainda como um mecanismo de defesa que permite à pessoa avaliar situações novas através de uma atitude de cautela e buscar a resposta adequada para a situação que pode acabar por se transformar em uma máscara.


Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando "Não me olhem! Não me olhem!" só para chamar a atenção.

O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele. Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.

O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são urna multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.

Luiz Fernando Veríssimo, Extraído de: Comédias da Vida Pública, L&PM Editores, pp. 324-325


Alguns diriam que sou uma falsa tímida, mas depois da explicação de Luiz Fernando Veríssimo começam a entender que sou a extrovertida que é tímida. Em grupos tenho a tendência de ser conhecida como a palhaça, a que une a turma e sempre tenta ser sociável; mas com um olhar mais profundo se percebe que na realidade, são poucos os traços de personalidade que deixo transparecer e que são verdadeiras marcas para definição de quem realmente sou. Já ajudei deixando um post somente sobre isso... timidez é a minha marca registrada.

Nunca fui boa com palavras verbais quando o assunto sou eu mesma; consigo me expressar melhor com atitudes e palavras escritas. Depois de uma conversa de bar, na qual considero como as mais verdadeiras, pude refletir mais uma vez sobre a minha timidez, e como a utilizo como mecanismo de defesa para não deixar que as pessoas descubram sobre meus pensamentos visando defender meu medo de me acharem uma louca tola na qual sentirá vergonha ao constatar o que realmente pensam sobre mim e sair machucada da situação. E sim caro amigo, você me fez perceber e constatar que minha timidez não deixa fluir meus pensamentos, sentimentos e vontades mais sinceras. Venho através de uma simples atitude deixar estas palavras escritas para afirmar que você estava certo, preciso clarear meus medos, arriscar mais e deixar meu inibidor social desligado (pero no mucho né) sem temer o que irão achar de mim e se sairei machucada. Viver ultrapassa qualquer entendimento...

Ouvir falar que dentro de cada tímido há um artista esperando a hora de brilhar. E que, de dentro de cada artista, há um tímido que encontrou a válvula de escape. Dizem que o único empecilho para o tímido é ele mesmo, quando se propõe a deixa de lado o possível no curto prazo, para tentar fazer planos inatingíveis de longo prazo. No fundo, os tímidos são os melhores entre nós, mas boa parte de nós ainda não percebeu. E boa parte deles, também não.

Um dia me tornarei “A Melhor Tímida”; aquela que sabe que é tímida, que aceita o fato de ser tímida e que faz da sua timidez a sua vantagem competitiva.


Alice Seguindo o Coelho: com a ajuda de uma lanterna, afinal, essa toca é escura pakas!